Lançamento, Sin categoría

LANÇAMENTO: “A METÁFORA MAIS GENTIL DO MUNDO GENTIL” (ED. MACONDO), DE CARLA DIACOV

As Edições Macondo convidam para o lançamento de a metáfora mais gentil do mundo gentil, primeiro livro publicado no Brasil por Carla Diacov, autora de Amanhã alguém morre no samba, seu livro de estreia, foi publicado em Portugal, em 2015, pela Douda Correria. Ainda esse ano lançará Ninguém vai dizer que eu não disse pela mesma editora. Carla Diacov nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. É formada em Teatro e possui poemas publicados em diversas revistas no Brasil e em Portugal.

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O lançamento acontece no Café Muzik (Rua Espírito Santo, 1081 – Juiz de Fora, MG), dentro da programação do sarau Eco – Performances Poéticas, às 22h do dia 25 de agosto de 2016. Os livros já podem ser encomendados por e-mail, através da página da editora no Facebook ou em alguma das lojas virtuais.

Carla publicou na 06Garibaldi, você pode conferir clicando aqui.


SOBRE O LIVRO

metafora

Uma das poetas mais instigantes da nova geração chega às Edições Macondo trazendo uma “poética dos banheiros”. A metáfora mais gentil do mundo gentil, primeiro livro de Carla Diacov editado no Brasil, é um apanhado íntimo de situações e registros de uma voz espantada e eufórica, que corre linhas como se deixasse aberta a porta do banheiro público e chamasse os leitores ao redor.
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Ilustração da Capa: Anna Mancini
Revisão: Anelise Freitas
Número de páginas: 40
ISBN: 978-85-921140-2-2
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Sin categoría

UM POEMA DE EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA

O SAQUE

 

O museu de etnografia confere

ao arcaico

 

a certificação: o que era moeda

de matrimônio

 

(boi vermelho com chifre serrado)

é o caos

 

que, fora de si, não nos ameaça.

E dentro da norma,

 

sob as etiquetas, nos convence

de que a cultura

 

é um fruto nosso, não do alheio.

Sob as arcadas,

 

o museu tira a pele do animal azul.

Seus portavozes

 

(que divorciaram o boi vermelho

do sexo)

 

se distraem com o quebracabeças

do discurso.

 

Não houve suor, atrito não houve

entre os noivos.

 

Não houve sangue, nem dúvida,

de negar o pai

 

por um instante, e honrar a mãe

dando-se em

 

fuga. A noiva e o noivo (parece)

deramse

 

porque foram dados, testemunha

o boi

 

fornido vermelho dessa mostra.

O museu

 

se cumpre, legado de certa leitura.

Seus limpos

 

dentes de crocodilo oferecem o país

que não existe.

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Foto: Prisca Agustoni

EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Juiz de Fora. Sua obra já foi traduzida para inúmeros países. Esse poema foi publicado pela primeira vez na 01Garibaldi e livro Relva, publicado em 2016 pela Mazza Edições.

Ana Lídia Resende Paula, Sin categoría

UM POEMA DE ANA LÍDIA RESENDE PAULA

JÁ NÃO ERA TEMPO

olho sem enxergar o mundo:
uma janela
uma senhora no escuro

tantos dias de fé…
tantos momentos de busca…
tanto saber,
tanto querer
um cansaço por não ser
e uma esperança na vida

já não era,
eu já não sou
porque desmonto
e me monto
quando encontro
alguém mais frágil – forte – que eu.

sou só rio
só riso
só esse choro
que molha meu rosto

sou abrigo
pra quem me abriga
e o desvio
de quem desvia olhares
sou a chave
o achar
procurar
sabedoria

a crônica
a poesia
o caos
e a senhorinha
que me avista
acena
e avisa:
– já conheço a vida, minha filha!

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ANA LIDIA RESENDE PAULA integra o grupo o BPS – Sociedade dos Poetas Brasileiros.  Publicou em 2012, aos 12 anos, seu primeiro livro de poemas, “Linhas Poéticas” e em 2014 lançou o livro “Poetguese – A Utopia Por um Mundo de Palavras” – publicado em Nova York, pelo Lettrs, que reuniu textos de 84 jovens de todo Brasil. Esse poema foi publicado na 01Garibaldi.

Otávio Campos, Resenha

O POETA CHEGA (ATRASADO) AO CHÃO

por Otávio Campos

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Já há algum tempo conhecemos André Monteiro. Pelo menos nós, um público restrito da Faculdade de Letras, que compartilhamos corredores. O André Monteiro poeta é outra história, afinal, a gente só ouvia boatos. Naquele tempo o Facebook não existia, isso no início da faculdade, e o livro tinha sim importância. Escritor sem livro pra quê? Não sei se hoje mudou, mas penso diferente. A gente já conhece o André Monteiro desde essa época, e apesar disso era estranho o André Monteiro, já em 2014, me deixar um livro na secretaria da faculdade. Era estranho sobretudo que a Laura na Aquela Editora tenha tido o ímpeto (é uma boa palavra) de publicar o cheguei atrasado no campeonato de suicídio e suas quase 200 páginas. Quem leria um livro desse tamanho em tempos de não leitores? Quem leria um livro de poesia desse tamanho em tempos de não leitores de poesia? Hoje, provavelmente, não faria essas perguntas, até porque elas já foram respondidas várias vezes, e os números de vendas do cheguei atrasado confirmam todas as respostas.

Este livro, entretanto, não importa. Seu papel, cumprido com êxito, foi o de colocar em circulação a produção então “adormecida” do poeta.  A edição traz, no frontispício, a indicação: “1990-2013 / obra incompleta”, o que é uma reunião, mas também é um processo, uma casa em construção, alicerce, para dar lugar, enfim, à “obra completa”. O projeto político-poético-filosófico de André Monteiro, de boteco e acadêmico, parece que encontra seu ponto pleno de realização com uma prosa de sócrates – e me refiro ao trabalho como um todo, tanto ao livro que sai agora pelas Edições Macondo quanto ao curta-metragem feito em parceria pelo autor e Rafael Senra.

Na verdade, pouco importa também este livro. O livro nunca importou no fim das contas e a poesia, se assim ainda podemos chamar, continua na sua miséria por causa do cárcere que nos empurrou a cultura do livro. Doam-se os poetas ditos não-performáticos, a poesia é o que está por fora. É justamente o performático, o ritualístico, a volta dos jograis que libera a potência de uma prosa de sócrates. O subtítulo da versão impressa se apresenta: “Psicografada de ouvido pelo rapsodo André Monteiro”, e temos, então, dois movimentos logo de início: a psicografia, ou a transferência de um polo ao outro, a realização do invisível em meio materiais possíveis, e a ideia de ser o trabalho de um rapsodo, aquele que anda pelas ruas da cidade cantando versos de canções que não são suas. O afastamento da figura do Autor se realiza nessa medida, visto que tanto o psicógrafo quanto o rapsodo não são responsáveis (juridicamente?) pelo texto que carregam, mas abrem espaço para florescer o outro. O mesmo jogo de quebra ou, no mínimo, indecisão na atribuição da autoria já acompanha André Monteiro desde seu último livro, liubliblablá, com Luiz Fernando Medeiros (sobre o qual escrevi aqui), apesar de algumas “intromissões” denunciarem, rasgando como um estilete (e Sócrates tinha estilo, já dizia Bukowski), o pulsar autoral. No liubliblablá: “chegar atrasado em todos os campeonatos. chegar atrasado sempre. não querer ganhar nada. ter apenas o mínimo. apenas o mínimo”. Em uma prosa de sócrates: “se sou de muita prosa, sou também de muito ouvido pelos partos do caminho. chego atrasado na falação do banquete”.

A própria questão da autoria é do nosso tempo e da nossa cultura de livros. O livro mesmo não importa, o que importa é a rua. E é na rua que anda o velho Sócrates, de branco & óculos aviador, numa fotografia suja, que remete à sujeira e também ao frescor das primeiras fitas do Glauber Rocha, um saudosismo dos anos 70/80 que essa geração que ocupa a posição “frontal” da cena que se desenha na cidade (matéria do Tribuna) parece não superar. O rapsodo André Monteiro anda pelas ruas de uma Juiz de Fora iluminada e coberta de pessoas, que assistem espantadas a figura entoar palavras decoradas como num jogral: “não me confudam com cristo. nem me confudam comigo. cristo não era cristão. na mesma medida eu, o velho sócrates, não sou socrático”. Possivelmente, poucos entendem o que ele fala, a própria atuação (deixe essa palavra alcançar todos os sentidos possíveis) não traz o fingimento da verdade. O poeta vai à rua como Baudelaire passeando nos bulevares com uma tartaruga na coleira, o flâneur passeando para subverter a lógica temporal & racional do progresso. O poeta incomoda, comove – e não é esse o recurso do poético? A poesia só acontece na participação, na presença, no jogo. Não há poesia fora da rua, do mesmo modo que não há poesia sem deslocamento. E não foi pelo caráter de subversão, não foi por fazer com que tremam as estruturas hegemônicas que teria Sócrates, “de um modo radicalmente poético”, expulsado os poetas da República?

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O livro e o filme acontecem através dos encontros. Se não fosse o outro, a abertura de espaço ao outro, nada ali existia. O rapsodo abre lugar ao místico, pois veja se não é um processo xamânico, como um ritual, o ato de invocar outro, ou, como uma prosa de sócrates indica, ser cavalo do outro. O que é o texto poético que não o cíclico, que não o ritmo, que não as potências do ritual? Ainda assim, todos os contatos culminam na figura de André Monteiro, não de Sócrates, que come Sócrates, come Torquato Neto, come Nietzsche, come o que vê pela frente, e mastiga bem para construir a sua própria imagem. Suely Rolnik certa vez disse que a experiência com a antropofagia no território brasileiro propiciou um ambiente favorável para a esquizoanálise aflorar no país. Por esse caminho, penso que a figura que anda pelas ruas comendo os estranhos, mastigando os estranhos, falando os estranhos, é o próprio esquizo passeando: Sócrates, o esquizo –  que é Sócrates, é André, é “clementina de jesus, jesus segundo mateus, pedro paulo pasolini, píndaro, raul, montaigne, frederico nietzsche, visconde, emília, emília dickinson, heráclito, oswald, mário, andré dias pires, murilo, maria luiza monteiro guimarães, carlos marx, carlos baudelaire, carlos bukowski, nelson cavaquinho, saci pererê, monsueto, noel, torquato, tia nastácia, roberto corrêa dos santos (…)”.

Em uma mesa recente da Bienal do Livro, com Iacyr Anderson de Freitas, Edimilson de Almeida Pereira e Paulo Henriques Britto, uma das pessoas da plateia, ao final, disse que a cena poética de Juiz de Fora acontecia através de três estetas e o underground. Os três estetas seriam os dois poetas locais participantes da mesa e Fernando Fiorese, nomes que surgiram com o movimento D’Lira nos anos 80 e hoje alcançam projeção nacional. André Monteiro, que supostamente faria parte de uma geração posterior, entretanto, já não pode ser jogado no nosso rol anônimo dos poetas do underground. Com uma prosa de sócrates ele, enfim, marca seu lugar, fora da torre de marfim dos estetas, acima do subsolo da geração atual: no chão, na rua, na conversa com os que passam pela rua. O poeta encontra fácil seus leitores no espaço entre prosa e poesia, entre texto poético e ensaístico, entre fala e escuta, algo que André Monteiro vem fazendo já desde seus primeiros trabalhos, com a dicção duvidosa das palavras que brincam com sons e sentidos, trabalhando no choque e na ruptura entre doxa e paradoxo.


OTÁVIO CAMPOS é poeta e editor no underground. Publicará este ano Os peixes são tristes nas fotografias.

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COMO TEM PASSADO | ISMAR TIRELLI NETO

 

Tratemos agora de acordos felizes.

É do mundo das aparições

que o seu corpo se crispe

inteiro, e o cheiro

da pomada empesteie, enfim,

cada cômodo da casa,

assim passaram-se muitos janeiros,

e é preciso que ponham ordem e reparo

aos desastres

de um novo rosto que chega…

o dia todo lagarteando ao sol

sem pesar muito bem as consequências.

Tratemos de acordos felizes,

entre nós e o divórcio

entre as coisas, sutis modulações

de luz, temperatura, um latido…

Embora eu não morra de amores

pelo cão, ele acata comigo

as tardes mortas

e me desobriga de matar as baratas.

Às vezes é divertido

vê-lo perseguir o próprio rabo, pode ser

infinitamente desesperador.

 

 

 


sou mesmo uma desgraçada,

tudo me sai ao contrário

 

uma série de autorretratos falhados

 


ISMAR TIRELLI NETO é poeta e ficcionista. Nasceu a 1985, no Rio de Janeiro, e publicou, entre outros, os livros synchronoscopio e Ramerrão, ambos pela editora 7Letras. Esse poema foi originalmente publicado na 01Garibaldi. Compõe também essa publicação uma série de seis autorretratos falhados do escritor, publicados no Facebook.

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NO MUNDO COM PEDRO CRAVEIRO

FILLED WITH SUCH LONGING

nenhum comprimido me trouxe
a salvação do mundo e das coisas
ninguém – isto seja todos –
me defendeu do tempo incerto

procurei-te em todas as ruas de londres
porque todas as ruas de londres adivinham
os teus cabelos
mas os teus cabelos são os teus cabelos
e uma cidade é uma cidade
querer-te no impossível dos dias
ou no acaso de oxford street
é adiar-me
para outra geração

picadilly sem ti
é picadilly sem ti

imagina,
abbey road não te conhece
portobello espera-te
at least i deserve the respect of
a kiss goodbye

 

craveiro


PEDRO CRAVEIRO nasceu no Porto, em Portugal, e é aluno do mestrado em literatura da Universidade do Porto. Esse poema foi publicado anteriormente na 01Garibaldi.

Otávio Campos, Resenha

PORQUE NENHUMA CASA É SEGURA

por Otávio Campos

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É fácil de apaixonar por Zambra. É fácil ler todos os romances de Zambra e se apaixonar por Zambra. É fácil ler os romances de Zambra porque: 1) a linguagem é estupidamente simples; 2) são curtos, muito curtos; 3) são de uma leveza narrativa incrível; 4) têm sido editados, aqui no Brasil, desde 2012, em belas edições pela Cosac Naify. Formas de voltar para casa, o maior até agora (160 pp.), dá continuidade ao projeto de edição brasileira das obras do chileno, depois de Bonsai e A vida privada das árvores, e a editora já divulgou que publicará em breve o livro de contos/novelas Meus documentos. As edições não trazem nenhuma fotografia de Zambra, mas é fácil de encontrar no Google, imprimir, emoldurar e colocar do lado da cama.

Formas de voltar para casa lida com os desafios de se voltar para casa, a construção e não somente, de todas as formas que isso vai se apresentando aos personagens do livro, de todas as formas que isso se apresenta a nós. Voltamos ao terremoto de 13 de março de 1985, mas também às tensões da ditadura no Chile, em uma narrativa ágil, como a dos primeiros livros. A questão nem é quem fica ou não do lado de Pinochet, mas a inocência e a culpa de quem ignora essas questões. Raúl, o homem solitário da vila, que se esconde por trás de uma identidade que não a sua, é apenas um ponto de encontro entre o narrador e Claudia, que precisa voltar, anos depois, para que o romance funcione. “É mais fácil entender assim. É melhor pensar que tudo isso foi uma história de amor”, mas os romances de Zambra nunca são uma história de amor. Quer dizer, todos precisam de uma história de amor porque, no fim, são sempre sobre a perda. Os romances de Zambra, e Formas de voltar para casa principalmente, são construídos através do desejo.

Em dois planos o narrador-personagem desenvolve a narrativa e mostra a fratura dessa construção: “Voltei ao romance. Ensaio mudanças. Da primeira para a terceira pessoa, da terceira para a primeira, até para a segunda”. O livro, que é sobre os pais, mas também sobre Eme, é em tudo sobre o escritor. Para escrever sobre Eme, a ex-mulher, é preciso reabitar a casa, em uma tentativa de reconciliação que nunca será possível, como a prosa não é possível e se torna ritmos, cadências:

 

É melhor não sair em nenhum livro

As frases que não nos queiram abrigar

Uma vida sem música e sem letra

E um céu sem essas nuvens que agora

Você não sabe se estão indo ou vindo

Essas nuvens quando mudam tantas vezes

De forma que ainda parecemos estar

Morando no lugar que abandonamos

Quando ainda não sabíamos os nomes

das árvores

Quando ainda não sabíamos os nomes

dos pássaros

Quando o medo era o medo e não existia

O amor pelo medo

Nem o medo pelo medo

E a dor era um livro interminável

Que um dia folheamos só para ver

Se no final apareciam nossos nomes.

 

É preciso, antes de tudo, sair da casa. E uma vez é por todas. É preciso retornar, depois de algum tempo, porque estamos sempre voltando pra casa, e confrontar a literatura dos pais com a literatura dos filhos. Uma hora é preciso, agora sim, saber se os pais apoiavam ou não Pinochet, mesmo que a ditadura não seja sua, mesmo que você nem tivesse nascido. Os anos 70 e 80 chilenos constantemente são recuperados na prosa dos contemporâneos e com Zambra acontece de maneira sutil e profunda. A ditadura acompanha cada movimento do livro, mesmo que disfarçada, ou discutida em voz baixa (sempre discutida em voz baixa) enquanto o pai dorme e mãe e filho fumam na sala. É preciso sermos todos personagens secundários.

Visitar a casa do passado não é voltar ao passado – é bom que não nos enganemos – mas é para isso que servem os álbuns de fotografia, “para nos fazer acreditar que fomos felizes quando crianças. Para nos demonstrar que não queremos aceitar o quanto fomos felizes”. Formas de voltar para casa não é um livro sobre a casa, tampouco sobre a ditadura. Pode ser que nos engane e alguns pensem que é uma espécie de ensaio autobiográfico que culmina na construção de um romance, construção tal esmiuçada nas partes 2 e 4 do livro, mas não. Acredito que, muito mais que as revoluções e as tensões entre o voltar e o estar, mais do que as tentativas de um corpo de habitar e ser habitado por uma casa, é um livro sobre o sossego, deste que existe quando não há mais retorno. O livro de Zambra é um ensaio contundente sobre amadurecer e não caber mais nas roupas dos pais. Pode ser que as revoluções, como diz um poema da Matilde Campilho, sejam mesmo o lugar certo para a descoberta do sossego: “talvez porque nenhuma casa é segura / talvez porque nenhum corpo é seguro / ou talvez porque depois de encarar uma arma / finalmente seja possível entender / as múltiplas possibilidades de uma arma”.

 

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FORMAS DE VOLTAR PARA CASA

Alejandro Zambra

Cosac Naify

160 páginas

Entrevista, Iacyr Anderson Freitas, Sin categoría

ENTREVISTA com Iacyr Anderson Freitas

 

 O MILAGRE DA POESIA JUIZFORANA

por Anelise Freitas

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Iacyr Anderson Freitas salienta “que Juiz de Fora tem uma tradição poética vigorosa”, pra logo em seguida completar dizendo como essa tradição se pautou em “um verdadeiro milagre”, já que “efetivamente esse patrimônio” nunca foi reconhecido. O poeta nasceu em Patrocínio do Muriaé (MG) em 1963. Entre seus livros publicados encontramos poesia, ensaio e contos. Já concorreu a vários prêmios literários importantes no Brasil e no exterior; sua obra também foi traduzida para diversas línguas. Seu último livro, Ar de Arestas (Escrituras; Funalfa, 2013), esteve entre os vinte e dois livros mais votados do ano passado no Portugal Telecom, um dos maiores prêmios de literatura em língua portuguesa – repetindo o feito de 2008, quando Quaradouro (Nankin Editorial; Funalfa, 2007) ficou entre os doze títulos mais votados no mesmo prêmio – e figurou também entre as indicações na mesma categoria no maior prêmio nacional de literatura, o Jabuti.

 

Nessa entrevista, publicada originalmente na revista literária Um Conto e, posteriormente, na 01 Garibaldi, Iacyr fala sobre a poesia feita em Juiz de Fora, durante os anos 80, quando publicações como o folheto Abre Alas e a revista D´Lira agitam a cena poética da cidade (poética no sentido mais amplo, pois coabitavam artistas variados). Com o mesmo carinho do poeta Iacyr Anderson Freitas convido vocês a lerem a entrevista que segue abaixo.

Quando falamos sobre a geração de poetas dos anos 80 (principalmente no que tange ao folheto Abre Alas e à revista D´Lira), em Juiz de Fora, seu nome é constantemente lembrado. Entretanto, em outra entrevista, você alega não saber “tecer qualquer comentário equilibrado sobre o que se passou na cidade naquele período”. Portanto, mesmo que de maneira desequilibrada, gostaria de saber como você define a sua participação naquele momento marcante para a poesia local.

Resposta: Eu não consigo definir minha participação naquele momento. Aliás, creio que a vida é mesmo infensa a definições. Como sempre digo nos cursos que ministro, matamos o que definimos. Talvez felizmente. Retomando o fio da meada: participei dos conselhos editoriais da revista d’lira e do folheto abre alas, mas confesso que não tive como me dedicar muito às tarefas de edição. Perto dos trabalhos desenvolvidos pelo Zé Santos e pelo Mutum (o falecido José Henrique da Cruz), por exemplo, a minha contribuição efetiva era uma equação cujo resultado tendia a zero. Na época, eu cursava Engenharia Civil na UFJF, tendo aulas de segunda a sábado, as mais das vezes das sete da matina às seis da tarde. Durante um bom tempo fui Diretor de Cultura do DCE e me dediquei, ainda, à militância estudantil. A ditadura militar estava nos estertores – como o próprio país, aliás – e ninguém imaginava como a situação política brasileira poderia superar, sem sequelas, quase vinte anos de repressão e descalabro. De quebra, eu lutava muito, financeiramente falando, para me manter em Juiz de Fora, pois meus pais não tinham recursos e a carga horária da UFJF não me permitia trabalhar. Passando esse período a limpo, mais de trinta anos depois, vejo que tudo ali foi muito fértil e rico, mas também muito difícil. Por conta de todas essas dificuldades, minha participação naquele momento em Juiz de Fora, seja como poeta ou editor, foi muito modesta.

Durante o colóquio “relendo a poesia dos anos 70 aos dias atuais”, realizado pela UFJF em 2005, você declara que nos anos 80, na nossa cidade, havia uma “comunhão de interesses estéticos ou sociais”. No prefácio do Livro de sete faces – poetas em diálogo (antologia juiz-forana que reúne poetas dos anos 90), o também escritor Edimilson de Almeida Pereira diz que aqueles poetas possuíam mais afinidades pessoais do que poéticas. A “sua geração” ainda está em profícua atividade, assim como a geração subsequente, entretanto há em Juiz de Fora um número considerável de novos poetas, também em diálogo. Como você vê a poesia feita na cidade após os anos 2000?

Resposta: A citada comunhão de interesses estéticos ou sociais tinha por base, no início dos anos 1980, a luta contra o regime de exceção e a persistência, ainda, a despeito da tão propalada “abertura”, de determinados canais de censura. Esses temas uniram a comunidade artística da cidade. De fato, artistas de diversas áreas procuravam estabelecer diálogos e parcerias, objetivando trabalhos conjuntos. Essa foi uma marca daquele período. No que se refere à poesia atual da cidade, é importante salientar que Juiz de Fora tem uma tradição poética vigorosa, o que é um verdadeiro milagre, pois nossa cidade nunca reconheceu efetivamente esse patrimônio e nunca soube implementar políticas de incentivo à leitura ou de formação de público para o universo lírico; o que é lamentável, em todos os sentidos. Vejo muita qualidade na poesia atualmente produzida em Juiz de Fora. De certa forma, a chama da nossa tradição continua acesa, agora através de novos nomes e novos livros.

Qual e como é o público que consome poesia em Juiz de Fora atualmente? Existe alguma singularidade em relação aos anos passados?

Resposta: Eis aí uma pergunta difícil de ser respondida. Se a gente leva em conta o que o mercado livreiro considera público consumidor, a poesia não existe, comercialmente falando. E isso, claro, não é um problema local, infelizmente. Basta uma passada d’olhos nas maiores livrarias da América Latina. É difícil encontrar alguma que possua, entre dezenas de milhares de exemplares, mais de cinquenta títulos de poesia. Para um mercado que se encontra voltado quase que exclusivamente para a divulgação e o consumo do texto paraliterário, a poesia não tem futuro. Ora, o texto lírico exige um leitor ativo, capaz de preencher as lacunas semânticas e, mais ainda, capaz de produzir sentidos através da própria leitura. A poesia opera no (des)limite da linguagem, na extremidade dos seus horizontes cognitivos, muitas vezes com francas aberturas para o imaginário. Sua configuração refuta qualquer possibilidade de leitura que esteja voltada apenas para a confirmação de expectativas. Logo, a cisão existente entre lírica e mercado é, mantida a condição atual, insolúvel. Felizmente insolúvel. Apostar na mudança desse quadro – sem trabalhar com políticas capazes de atenuar os entraves gerados pela atual ditadura de mercado – é apostar no convívio pacífico de lobos e ovelhas. Deixando de lado as louváveis exceções, o público que consome poesia é em grande parte composto de poetas. Nos lançamentos, os autores conseguem justificar uma cota mínima das mínimas tiragens – não sem algum estorvo – amolando parentes e amigos eventuais. Foi assim antes e deverá continuar da mesma forma por um bom tempo. Sem políticas de incentivo à leitura e sem estratégias de formação de público leitor, continuará assim até que o rei D. Sebastião retorne da batalha de Alcácer-Quibir. Ou até o Armagedom, no mínimo.

No mesmo colóquio citado acima você disse que seus dois primeiros livros, retirados de sua documentação literária pessoal, são “equívocos bibliográficos”. Ano passado você foi novamente indicado a um dos maiores prêmios literários em língua portuguesa, o Portugal Telecom. Nessa perspectiva sua poesia amadureceu. Gostaria, dessa forma, que você falasse sobre a indicação e como ela se relaciona com a maturidade adquirida pela sua poesia.

Resposta: Eu fiquei surpreso com a indicação. Em primeiro lugar, porque eu não sabia que a Escrituras havia efetuado a inscrição do meu livro no prêmio. Após a divulgação do resultado, recebi um monte de mensagens e diversos telefonemas. De início, não compreendi direito o que estava acontecendo. Em segundo lugar, porque estar entre os vinte e dois livros mais votados do ano – e de um ano tão rico em grandes títulos poéticos – foi mesmo um feito considerável para o Ar de Arestas. Afinal de contas, a comissão julgadora dessa fase do Portugal Telecom é formada por centenas de escritores, críticos e professores de literatura de diversas partes do país. Eu resido em Juiz de Fora, sou funcionário público aqui, não me desloco habitualmente para lançamentos e palestras, não me encontro inserido no meio acadêmico, não sou figurinha fácil nos segundos cadernos dos grandes jornais, não tenho “vida literária”, por assim dizer, e isso dificulta bastante o processo de divulgação de minha obra. Não faz muito tempo, creio que em 2008, meu livro Quaradouro ficou entre os doze títulos mais votados no mesmo Portugal Telecom. Essas surpresas me animam, mas não sei até que ponto a palavra maturidade se encaixa nesse contexto. Comecei a escrever e a publicar poesia em 1981. Todavia, meu conjunto de obra é um caleidoscópio. Por quê? Porque não quero ficar me repetindo. Quando acredito que certo tipo de linguagem já se encontra cristalizada em meus livros, procuro outros caminhos. Para qualquer escritor, as zonas de conforto são campos minados. Às vezes, cemitérios de reputações e promessas. A poesia, como a vida, precisa valer a pena. Precisa valer o risco. Assim, sinto-me sempre recomeçando, fato que tem pelo menos a vantagem de aguçar, em mim, a navalha crítica, melhor dizendo, autocrítica. Sem essa navalha, não se escreve coisa que mereça pousar em livro. É claro que as críticas sinceras são imprescindíveis. Tão imprescindíveis quanto raras, infelizmente. Mas tais críticas devem aparecer num segundo momento, depois que a nossa navalha autoral já fez todos os cortes e ajustes possíveis. Por isso acredito que a palavra maturidade não sirva muito bem para o caso. Continuo sem saber começar um livro e, quando o começo, continuo sem saber como acabá-lo. Estabelecido o ponto final, após contendas intermináveis, continuo desconfiando que o rebento não faz jus ao batismo de Gutemberg. Planejo escrever livros que, no fim das contas, sempre trilharão caminhos bem diversos do planejamento estabelecido. Quanto mais estudo, menos compreendo essa coisa transcendente a que chamamos poesia. Se a maturidade for isto, – esta redobrada incerteza, esta vontade de recomeçar a cada segundo, este “não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê” –, maravilha! Aceito de bom grado.

 

IACYR ANDERSON FREITAS publicou vários livros entre poesia, ensaio e prosa. Teve sua obra traduzida para diversas línguas e foi contemplado nos principais prêmios literários do país.

Entrevista concedida à Anelise de Freitas em julho de 2014 e, originalmente, publicada em janeiro de 2015, no site da Um Conto – Revista Literária.

Paula Duarte, Sin categoría

DA CASA, com Paula Duarte

 

paula.jpg    ©Autorretrato de Paula Duarte

 

Desde 2007, salvo engano, a poeta paranaense Ana Guadalupe escreve para o seu blogue, Welcome Home Roxy. Além do nome que remete ao lar, a poeta tem alguns textos que falam sobre a intimidade da casa e suas possíveis relações com ela (como em a/c proprietário do imóvel). O também poeta Mariano Marovatto tem um livro, no prelo, chamado Casa e Otávio Campos, Anderson Pires e Anelise de Freitas trabalham no livro, com título provisório de Poemas para a casa. Ou seja, recentemente essa temática tem se alastrado por alguns poetas mais jovens e é muito interessante vê-la também nas artes visuais. No caso de Paula Duarte, na fotografia. A artista diz que fotografar a própria casa surgiu muito naturalmente, a partir de seu interesse pelas coisas banais, às vezes esquecidas, outras vezes incômodas. Dar corpo ao trabalho foi o mais complicado, pois quando percebeu tinha um grande arquivo íntimo e começou a pensar como reunir esse trabalho dentro de um proposta à outros olhares além do seu.

De casa foi contemplada pelo III Prêmio Funalfa de Fotografia, o que garantiu a sua exposição na mostra anual Foto 14. As fotos ficavam em uma espécie de armário – em que o convidado precisava manipular as gavetas para visualizá-las –, atrelado ao fato da exposição estar na reinaugurada Casa Vinteum, da fotógrafa Nina Melo, (uma casa antiga e reformada no bairro São Mateus), corrobora para a concepção final de seu trabalho. Paula Duarte afirma que ao ser selecionada, esperava expor no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, como havia acontecido nos outros anos. Paulinha, como é conhecida entre os amigos, tem certeza que “a casa” agregou muito a sua proposta. A mudança foi uma surpresa e a fez muito feliz. Não foi uma escolha da artista e sim da organização, que teve bastante consciência ao propor o local. “A Nina é uma grande movimentadora da arte fotográfica em Juiz de Fora, a ideia de trazer o espaço cultural para uma residência é um fator de aproximação do público”, alega Duarte.

Falar da casa é mais que falar de si mesmo, mas de todos que partilham o espaço (isso se for falar da casa física, quatro paredes). Para Paula o gesto de abrir uma gaveta é algo corriqueiro e, ao mesmo tempo, uma metáfora sobre o acesso a algo interno e muitas vezes esquecido. Entre a coleção de fotografias raramente há alguma pessoa clicada, ou seja, há uma predominância dos objetos da casa. A artista escolheu mostrar a presença de forma sutil: “nunca revelo um corpo por inteiro, mas a disposição dos objetos, as marcas do tempo e os desgastes do uso mostram uma presença na ausência”. Nunca se vê uma pessoa, mas se tem a certeza que essa é uma casa habitada.

(Publicado originalmente na 01 O Garibaldi.)

PAULA DUARTE é graduada em comunicação social pela Universidade Federal de Juiz de Fora e trabalha também com artes visuais, voltando sua produção e pesquisa ao fazer autoral. Em 2014, foi contemplada pelo III Prêmio Funalfa de Fotografia.